Como os valores capitalistas programam você Poços de Caldas, Minas Gerais

As suas preferências e hábitos também são programas que um dia foram instalados em você. Se você torce para um determinado time, é possível que tenha aprendido com alguém. Aprenda mais no artigo abaixo.

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Como os valores capitalistas programam você

Para poder dirigir um carro, você precisa ser programado: precisa aprender a pisar primeiro na embreagem para depois engatar a marcha e em seguida acelerar, etc..
As suas preferências e hábitos também são programas que um dia foram instalados em você. Se você torce para um determinado time, é possível que tenha aprendido com alguém que ele era o melhor quando comparado aos demais. Se você gosta de praticar um determinado esporte, foi programado (pela TV, pela escola, ídolos, amigos, etc.) para admirá-lo, além de programar-se para praticá-lo, fisicamente e cognitivamente.
Para viver numa sociedade capitalista você também precisa ser programado.

O primeiro programa que o capitalismo instala é o sentimento de falta, de carência, de “vazio”. Perceba como a todo momento procuram (a TV, as pessoas, a propaganda, ) mostrar-lhe como você carece de “coisas”: um carro novo , um novo computador, a perfeição física, vastos conhecimentos numa determinada área, e a lista seria interminável. É como se não bastasse ter muito, pois o certo, o bom, é ter cada vez mais.
O que alimenta esta ânsia por ter sempre mais é um forte e duradouro sentimento de insatisfação. É preciso bombardear as pessoas a todo momento com imagens e mensagens que lembrem-nas do quanto são incompletas, imperfeitas e, principalmente, infelizes.

Em seguida, é preciso mostrar-lhes que a aquisição disto ou daquilo restituirá seu equilíbrio e felicidade.
Dentre outras conseqüências, isto gera um constante adiamento da própria felicidade. É como se as pessoas dissessem a si mesmas: “No dia em que eu possuir X (ou em que eu for X), darei a mim mesmo permissão para ser feliz e desfrutar a vida”. Enquanto este dia não chega, as pessoas vivem como se estivessem entre parênteses, ensaiando, preparando, mas não vivendo. Tal qual um ator que ensaia a peça mas nunca a encena, nunca pisa no palco.

Estas reflexões nos remetem à estória de um pastor de ovelhas que certa noite teve um sonho. Sonhou com um anjo que lhe dizia para levar seu rebanho até as planícies do norte. Dizia o anjo que se ele fosse em direção ao norte, encontraria belas paisagens, campos verdes, rios e cascatas. Assim fez o pastor. Por quarenta dias ele caminhou com suas ovelhas. Só parava à noite para repousar. Durante o dia, passou por lindas paisagens e pensou em parar e admirá-las, mas lembrou-se de que o anjo o mandou ir para as planícies do norte, e então pensou: “Lá certamente haverá paisagens como esta e até mais bonitas. Não vou perder tempo”. Em outros dias, teve vontade de parar e tomar um banho refrescante na cachoeira, mas lembrou-se do que o anjo lhe disse e desistiu da idéia. Finalmente chegou às planícies de que lhe falara o anjo e qual não foi sua decepção. Nada de campos verdes, paisagens, rios e cascatas. Apenas um enorme deserto. O pastor, desapontado, deitou-se no chão e chorou, lamentando sua falta de sorte. Foi então que o anjo apareceu diante dele e lhe disse: “Por que você não apreciou as belas paisagens, rios e cachoeiras do caminho? Sem desfrutá-los, de que lhe adiantou vir até aqui?” Mas o que está feito, está feito, e o pastor não poderia recuperar o que havia perdido. E então cuidou de aproveitar o caminho de volta, desta vez prestando mais atenção à viagem em si do que ao destino final.

Esta história nos fala de como às vezes temos estado “viajando pela vida” sem desfrutar o caminho, a viagem, só preocupados com a chegada. Como se só pudéssemos ser felizes ao chegar lá (em nossas metas, conquistas). Antes, não.

Você, leitor, já pensou no que aconteceria se as pessoas aprendessem, de alguma forma, a se sentirem felizes e satisfeitas hoje, sem adiar nada para “O dia em que eu for (possuir) X”? Pense no que aconteceria, por exemplo, com a chamada indústria da beleza, que se alimenta muito mais da insatisfação e infelicidade humanas do que da auto-estima e valorização de si mesmo.

Um outro programa instalado pelo capitalismo é a competição. Aprendemos desde muito cedo a competir por tudo. Competimos por uma vaga para estacionar, competimos no trabalho, na família, com amigos, competimos sempre. Desde crianças aprendemos o jogo do “Eu tenho, você não tem”, “Eu sou, você não é”.

É como se vivêssemos numa guerra constante. O inimigo é o motorista que tenta nos ultrapassar ou tomar nossa vaga no estacionamento, é o colega de trabalho que é perito num assunto que desconhecemos, enfim, é uma luta que não acaba nunca. Lutamos até contra o tempo (costuma-se dizer que fulano está “correndo contra o tempo”), contra uma doença, contra a miséria e, principalmente, luta-se contra as pessoas.

Um exemplo desta luta levada ao extremo nos é dado pelo paciente que sofre de Esquizofrenia Paranóide, aquele que acha que todos na rua o estão perseguindo e conspirando contra ele.

Uma maneira de entender toda esta competição é imaginá-la como uma fantasia em que alguém acredita que o incompetente, o mau, o infeliz e miserável é o outro. No fundo, pode tratar-se de uma fuga de si mesmo, da própria insegurança, incapacidade, infelicidade, etc.

Concluindo, o fato de vivermos numa sociedade capitalista já é suficiente para que sejamos programados por seus valores. Temos à nossa disposição todos estes programas e podemos acessá-los se assim o desejarmos. Mas a escolha final é nossa, ou seja, nós é que decidimos se vamos usar tais programas, se vamos modificá-los ou se vamos nos reprogramar, adquirir novos programas, tais como solidariedade, generosidade, justiça, empatia, compaixão, etc.

(∗) Nelly Beatriz M. P. Penteado é Psicóloga e Master Practitioner em Programação Neurolingüística (PNL).

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