Antropologia do trabalho Nossa Senhora do Socorro, Sergipe

O estudo explora a busca do homem pela satisfação, levando em consideração o dever dele com o trabalho. Esse artigo aprofunda o pensamento existencialista. Necessidade de trabalhar versus o desejo de aproveitar o dia representam o ponto de conflito abordado pelo autor.

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Antropologia do trabalho

Uma antropologia do trabalho*

Neri de Paula Carneiro

O homem aceita o trabalho para conquistar o ócio. E hoje,quando pela técnica e pelo progresso social e político, atingimos a era em que,no dizer de Aristóteles 'os fusos trabalham sozinhos', o homem deixa a suacondição de escravo e penetra de novo no limiar da idade do ócio.

Oswald de Andrade

Introdução

Por que o homem tem que trabalhar? Esta é uma das indagaçõesque tem angustiado a humanidade. De um lado alguns pensadores tem apresentadouma resposta que prioriza o homem como ser que nasceu para o prazer da vida.Para a auto-realização que se dá pela ociosidade. De outro lado há aqueles quedefendem a trabalho como sendo uma das poucas coisas que realizam a vidahumana, pois mediante o resultado do trabalho o homem pode construir aquilo quesonha. Onde está a verdade? O homem existe para trabalhar ou para"curtir" a vida? Ou haveria uma alternativa mediana, afirmando que ohomem está no mundo para superar as limitações que lhe são impostas e que asuperação é o que lhe dá prazer. Mesmo que essa superação seja superar a tarefaque seu trabalho lhe impõe cotidianamente?

É isso que se discute neste pequeno artigo muito mais frutode reflexões que de análise bibliográfica.Trata-se de um artigo que pretendecolocar uma questão, mais do que respondê-la.

1- O homem

Uma primeira discussão deve ser feita –como já o fizemos em outras oportunidades – dizrespeito à indagação sobre quem é o ser humano: o homem, que realidade é essa?Várias ciências se ocupam dessa indagação. Vejamos o que afirma um dos grandespensadores que se debruçou sobre a questão da busca de explicação para o serhumano, dizendo que "somos inevitavelmente centro de perspectiva emrelação a nós mesmos" (CHARDIN, 1986, p. 25). Isso implica dizer que nãoimporta de que estejamos falando, o ponto de partida para qualquer discussãoserá sempre o ser humano. Podemos falar sobre as galáxias, ou sobre o trabalho,mas sempre será uma indagação humana e a resposta será sempre para satisfazeruma expectativa humana.

O padre Batista Mondin (1982) apresenta o que chama defenomenologia do homem, descrevendo rapidamente, dez de suas características.Começa com a "dimensão corpórea" do homem (Homo somaticus); descrevea "Vida Humana" (Homo vivens), buscando as origens da vida humana.Passa, a seguir, a discorrer sobre o "Conhecer Sensitivo eIntelectivo" (Homo sapiens) e a capacidade humana de conhecer asrealidades. À discussão sobre "vontade – Liberdade– Amor" (Homo volens) o padre italiano apresenta oargumento da centralidade da vontade. O "Problema da Linguagem" (Homoloquens) se insere no centro da filosofia da linguagem e da capacidade humanade comunicação.Analisa, ainda a dimensão "social e política do homem"(homo socialis), analisa "a cultura e o homem" (Homo culturalis). Fazum histórico do "Trabalho e Técnica" (Homo faber), discutindo asconcepções de trabalho ao longo da história. Termina analisando o "jogo eo divertimento" (Homo ludens) e a relação do "homem e areligião" (Homo religiosus).

E nós poderíamos continuar a lista de caracterizações: ohomem é uma teia de relações, é um ser que depende do seu meio, é um serinquieto, inconformado, assentado no mundo físico, O homem é um animalterrestre e o mundo físico é uma condição síne qua non para suasobrevivência. (MELLO, 1982, p. 37), mas perscrutando o infinito. Talvez emrazão disso o padre T. Chardin tenha dito que "encontramo-nos colocadosnum ponto singular, sobre um nó, que domina toda a fração do Cosmo atualmenteaberta à nossa experiência. Centro de perspectiva, o Homem é simultaneamentecentro e construção do Universo." (CHARDIN, 1986, p. 26).

Em síntese é o homem que dá sentido a todas as realidades.Dá sentido à existência dos existentes. Caracteriza-se como esseemaranhado de aspectos e dimensões. Não se esgota ou limita-se a esta ou àqueladimensão, mas é um emaranhado rizomático de capacidades e possibilidades. Emrazão disso podemos dizer que o Homem não é, mas constrói-se cotidianamente apartir de um elemento que lhe é essencial: a cultura ou as manifestaçõesculturais. Mas permanece, ao mesmo tempo que trabalhando, buscando o sentido desua própria existência.

2- O sentido da existência

O ser humano pode ser visto, analisado e entendido a partirdessas e de várias outras concepções e perspectivas. Mas elas ainda não dãoconta de resolver um dos seus principais, mais antigos e mais angustiantesproblemas que é o do sentido da existência. Em função disso é que se podeafirmar: "homem não se contenta em permanecer fechado em si mesmo,reconhece que lhe corresponde profundamente viver por um ideal, por umafinalidade última" conforme as palavras de Sílvia Regina R. Brandão(2005). Isso corresponde às mais antigas indagações norteadoras da vida humana:De onde vim? Para onde vou? E a mais intrigante de todas as indagações: O queestou fazendo aqui?

Olhando a partir de um ponto de vista religioso ficaaparentemente mais fácil responder à questão do sentido da existência. Mas narealidade a resposta não é assim tão simples. Pois teríamos que saber a partirde qual segmento religioso dar a resposta. Falando a partir do cristianismo aresposta é uma; se a partir das atitudes religioso-filosóficas orientais(budismo, hinduismo...), a resposta já seria outra. O espiritismo, por sua veztem outra postura.

Para o cristão o homem está no mundo em busca do seu fimúltimo que é glorificar a Deus; mas por ser impuro (portador do pecado originale de outros) deve, então, purificar-se com a finalidade de voltar para Deus. Assimse a tendência é voltar significa que veio Dele. E com isso já fica resolvido oproblema não só do fim como da origem. E o existir ganha uma conotaçãoangustiante, pois não lhe coube escolha nem em nascer e por ter nascido já semanifesta pecaminoso. Lhe é concedida a vida como um presente, mas essepresente vem com defeito de fabrica: trás a mancha do pecado... além disso, háum outro elemento a ser considerado na perspectiva cristã: afirma-se que o serhumano é criatura, e que, como tal deve prestar culto ao seu criador. Mas seriaesse o sentido da existência humana? O ser humano existe para prestar culto aoseu criador? Mas isso não seria diminuir o criador, que necessitaria de suacriatura para receber louvores?

A partir de uma postura hindu-budista o homem tem outrafinalidade de estar no mundo. Trata-se, também, de um processo de purificação,com a finalidade não de voltar, mas de "mergulhar" no absoluto, apartir da meditação. Assim o homem não "iria" para outro mundo, encontrar-secom o absoluto, mas a partir da meditação e da entrega encontraria suarealização no próprio aqui e agora re-significado pela contemplação e pelameditação. Esse processo de meditação deveria conduzir a pessoa a um alheamentoem relação às realidades até chegar ao ponto supremo da completa indiferença asi mesmo e às exigências do cotidiano. A questão que se coloca, neste caso, dizrespeito justamente a esse processo de esvaziamento que se assemelha a umaespécie de despersonalização. Seria esse o sentido da existência? Viver paranão ser?

Olhando de uma postura espírita o ser humano está emprocesso de aperfeiçoamento. Dependendo de suas atitudes –boas ou más – pode evoluir ou regredir. Então afinalidade da permanência do homem no mundo é a purificação. Os atos bons o elevame os maus provocam declínio, num processo que se pode dizer infindo. Pode servisto como ascendente, mas se olhado do ponto de vista filosófico, pode-sedizer que esse é um processo infinito, pois sendo limitado será sempreimperfeito, sendo que a perfeição só existe no criador incriado. Oquestionamento a ser feito refere-se, justamente, a esse processo detransmigração: admitindo que ele ocorra, quando termina? Como encaixar o livrearbítrio nesse processo, pois o ser humano pode permanecer eternamente fazendoescolhas que não o levem à perfeição?

Note-se que todas estas atitudes religiosas dão respostaspré-estabelecidas para o sentido da existência. Refletem sobre o destinohumano, mas não discutem a razão do estar no mundo. Daí os questionamentos: Seo homem está no mundo para se purificar, significa que é impuro, ou estáimpuro. Mas como chegou a essa impureza? Por que se tornou impuro? Se suaorigem é uma divindade, por que essa divindade o cria, ou o coloca no mundocomo ser impuro? Não poderia tê-lo já criado sem pecado? Por que nasce pecador,se a finalidade é a purificação e libertação do pecado? Ou o homem é apenas ummarionete nas mãos de uma divindade que gosta de se divertir às custas dosdramas humanos? Que divindade é essa que, aparentemente, se diverte com osdramas e sofrimentos humanos, para, só depois de muito sofrimento, leva-lo àperfeição? Olhando deste ponto de vista não tem sentido o ser humano ter sidocolocado num mundo adverso, viver e sofrer as conseqüências da vida para, sódepois de sua morte, poder encontrar a realização –isso se tiver vivido de acordo com os planos secretos de seu criador...Portanto, do ponto de vista religioso parece que seria muito mais sensato ohomem já ter nascido puro! E como ser puro poderia mais facilmente manter-se emcontato com a fonte de sua pureza.

Com isso se verifica que a dimensão puramente religiosa nãoexplica o sentido da existência humana. Mas o homem sabe, de alguma forma nãoracional, que sua vida não se resume a esta existência material e cotidiana.Por tradição ou por motivação própria, crê em uma vida pós-vida. E, embora semsaber como nem o porquê dirige-se para a morte, que é o caminho ou a entrada naoutra dimensão que acredita existir. E que, de alguma forma, dá algum sentido aoexistir. Ou seja, o homem existe para morrer. "O caminho da vida é amorte" como afirma a letra da música de R. Seixas. Mas qual o sentido davida? E agora, também, da morte? Ou é a morte que dá sentido à vida, comoensina Paulo de Tarso: "viver é bom, mas morrer é lucro"

Mas, e se o homem olhar para si de um ponto de vistamaterial?

Também aí precisa de um sentido para sua existência. Mesmoadmitindo não haver nada após a morte, permanece a busca pelo sentido doexistir. E aqui entra uma questão complementar: se o homem existe para morrer,por que viver?

Se a vida, tendendo para o transcendente, já é um problema,mais problemática ainda é a existência sem uma perspectiva de pós-existência.Uma vida pós-vida terrestre...

O período que se convencionou chamar de Helenista foi um dosque mais deu ênfase a essa reflexão e à questão do sentido da existência. Umexemplo cabal disso pode ser visto no Cinismo, corrente que pode ter seoriginado em Sócrates, (REALE; ANTISERI, 1990), mas que teve seu maior expoenteem Diógenes que durante o dia andava pelas ruas de Atenas, com uma tocha acesa,procurando um homem. Também os estóicos e os epicuristas (hedonistas) secolocaram essa mesma indagação. Para os estóicos o sentido da existência era asuperação, a constante vigilância e esforço para vencer as paixões (MONDIN,1991). Essa superação podia ser feita mediante a reflexão e busca doconhecimento. Por outro lado os epicuristas viviam para e pelo prazer (daí seuepíteto de hedonistas). Também buscavam a sabedoria, mas a sabedoria quegerasse prazer; um prazer que não fosse o carnal, mas o da posse do saber.

Em todos os casos a finalidade da existência era a superaçãode limitações. A razão de ser do homem, portanto poderia ser entendida como umavida voltada para a superação das limitações. Tanto das limitações físicas comointelectuais; e mesmo das limitações impostas pelas convenções sociais. E emfunção disso pode-se entender tanto esforço que as pessoas fazem para atingirpequenos ou grandes objetivos; pode-se entender os esforços hercúleos para asuperação ou para a auto-superação.

A razão da existência pode ser vista como um colocar-se esuperar desafios. Numa corrida constante contra as limitações. Uma das facesdessa luta contra os desafios, em busca da superação é o que se chama detrabalho. E, à sensação de vitória, após esse esforço é a possibilidade degozar momentos de lazer e de ociosidade. É o momento de retro-alimentação paraa nova batalha, em busca do novo objetivo... numa constante evidenciação de queo homem é insatisfeito... E também inacabado?

3- Aspiração por lazer e ociosidade

Cristãos, materialistas, capitalistas e todos as outrascosmovisões defendem a idéia de que o homem tem que trabalhar. Para quê? Comque objetivo? Para continuar existindo, diz SAVIANI (2003, p. 152): "Ohomem, para continuar existindo, precisa estar continuamente produzindo suaprópria existência através do trabalho. Isso faz com que a vida do homem sejadeterminada pelo modo como ele produz sua existência". A afirmação deSaviani é um reflexo da explicação marxista, dizendo que o ser humanonecessita, constantemente construir sua existência material pelo trabalho. Deacordo com essa concepção o homem existe pelo e para o trabalho.

É bastante comum que se ouça a expressão: o trabalhodignifica o homem. Como isso pode acontecer? Qual é o trabalho que podedignificar, quando se vê, cotidianamente os trabalhadores maldizerem aescravização a que são submetidos pelo trabalho? Como pode ocorrer adignificação quando o trabalhador não recebe os frutos do seu trabalho ou nãopode dispor de seu tempo para realizar as obras de que tem vontade ounecessidade? Como se sentir dignificado se percebe seu trabalho como umalimitação às suas aspirações? Como dizer que o trabalho é dignificante se osfrutos do trabalho estão produzindo a riqueza de outro e o ato de trabalhar éum momento de escravização?

É neste ponto que entra em discussão uma dimensão da vidahumana, ou uma das aspirações básicas do homem: a ociosidade (LAFARGUE, 2000).Entendendo a ociosidade não como aquela situação de deixar de fazer algo movidopela preguiça, mas a situação em que a pessoa se dá tempo para atividades aserem desenvolvidas além do trabalho; aquelas atividades que se realizam pelopuro prazer de realizá-las, nos momentos de lazer ou no cotidiano. Tendo assimo trabalho como instrumento de sobrevivência e a ociosidade como meio de vida.

Entra aqui a dimensão lúdica da vida humana. Entram aqui asatividades dos jogos, individuais ou grupais, sendo esta mais umacaracterística própria do homem, que "inventa jogos e diverte-se comonenhum outro animal sabe fazer" (MONDIN, 1982, p. 209). Para ser maispreciso pode-se dizer que o homem busca a satisfação e a alegria nos jogos edemais divertimentos. Vence os obstáculos para sentir-se vitoriosopois isso lhedá prazer. Participa de atividade laborais, não só para receber o justopagamento, mas porque no ato de fazer seu trabalho sente prazer. A busca e arealização de obras prazerosas acaba sendo um dos motivos e sentidos daexistência humana. Não importando se esse fazer é trabalho ou são os jogos; nãoimporta se é atividade laboral ou lúdica, desde que feita por e pelo prazer.

E assim pode-se dizer que qualquer atividade, pode serlúdica, prazerosa. Inclusive o trabalho, pode ser visto como uma atividadeprazerosa – embora não se possa dizer que seja lazer.Como se pode caracterizar uma atividade lúdica? MONDIN (1982, p. 212) dá umaindicação: "Para que uma atividade mereça ser considerada lúdica, odivertimento, o prazer, a satisfação não devem entrar nela somente comoingredientes, mas devem constituir seu objetivo primário". Na atividadelúdica, portanto o que conta não é a forma como a pessoa se diverte, mas avontade de se divertir. O ato é lúdico não por que provoca alegria, mas por queé buscado pela sua capacidade de ser prazeroso e gerar prazer.

E a ociosidade?

Quando a atividade prazerosa não é o trabalho em si mesmo, ohomem busca o prazer nos momentos de ociosidade. Naqueles momentos em que estáse dedicando a fazer somente o que lhe proporciona prazer. E ao fazer issoestará se realizando, pois estará se sentindo feliz, sabendo que, como dizBRANDÃO (2005): "a felicidade está vinculada à autenticidade da vidahumana, à possibilidade de relacionar e integrar cada aspecto parcial com umponto unitário, na busca da realização total, da plenitude do viverhumano". Ou seja, o ser humano atinge a felicidade na ociosidade porqueestando ocioso pode dedicar-se exatamente àquilo que não lhe causaaborrecimento, ou que não lhe é imposto; ao que realiza por iniciativa eimpulso próprio, sabendo que a execução disso que está realizando não lhe daráoutra recompensa além da felicidade e do contentamento. Essa atividade pode serde lazer ou de trabalho, mas será uma atividade prazerosa. Vale destacar, quemuito do progresso humano se deve aos homens e mulheres que se dedicaram aoócio. Pois o ócio, além de prazeroso é criativo: de mentes ociosas e nãoatribuladas éque nascem as novidades.

4- Necessidade de trabalho para o lazer

Tendo o prazer, a felicidade, como princípios para o sentidoda existência, cabe a pergunta sobre a estruturação da sociedade para chegar aesse objetivo. Ou seja, a atual sociedade fundamenta-se e se estrutura emfunção desses objetivos? Quais são os valores que se pode dizer que fundamentama sociedade atual? Não é exagerado dizer que o mundo atual, mais do que nunca,sonha com esses objetivos, mas, contraditoriamente, caminha a passos largosafastando-se deles. O corre-corre frenético em busca do "tempoperdido" e que será utilizado na tentativa de produzir mais, estáafastando, cada vez mais, o ser humano da edificação de uma sociedade doprazer.

Entre outras o mundo atual pode ser caracterizado como umasociedade de proprietários. Ou uma sociedade do ter. Mesmo o operário ouqualquer outro trabalhador, possui algo: sua força de trabalho. Diz SAVIANI(2003, p. 155), sobre a atual sociedade: "É uma sociedade deproprietários livres. Considera-se o trabalhador como proprietário da força detrabalho e que vende essa força de trabalho mediante contrato celebrado com ocapitalista". Assim temos de um lado o dono da empresa e do outro odono da força de trabalho. Estabelece-se, então uma relação de troca ou decompra e venda. Mas acaba sendo uma relação desigual pois o trabalhadorpermanece sendo proprietário apenas de sua força de trabalho. "Ele ficaexclusivamente com sua força de trabalho, obrigado, portanto a operá-la com osmeios de produção alheios" (SAVIANI, 2003, p. 155). Dessa forma, o trabalhadorproduz, mas não é proprietário do produto de seu trabalho. Essa relação detroca desigual tem como conseqüência uma desmotivação do trabalhador em relaçãoao seu trabalho. Passa o trabalhador a realizar sua obra não mais com o prazerde quem produz, mas com a obrigação de quem é submetido. Assim sendo executasua tarefa desmotivado porque sabe e sente que não nasceu para a submissão.

Mas seria essa a função do trabalho na vida do trabalhador?Parece que não. Como já ficou acenado, acima, o trabalho deve ser não umamanifestação do sofrer, mas um elemento de prazer e realização. Sobre issopodemos ler os três parágrafos seguintes:

"O trabalho é um aspecto fundamental da vida poratender às necessidades humanas, tanto do ponto de vista material comoespiritual, já que através das tarefas concretas o homem se sustenta e, aomesmo tempo, expressa seu modo original de realizar valores em um determinadotempo e lugar.

A descoberta do valor de sua contribuição pessoal para avida em sociedade é fundamental para o homem contemporâneo que vive em umasociedade onde é valorizado o individualismo, o isolamento e a competitividade.

O trabalho pode constituir-se em uma oportunidadeprivilegiada para o homem atual redescobrir a possibilidade de autênticarelação eu-mundo – onde o pessoal não seja negado,esquecido ou dissolvido – na medida em que o trabalharse torne ocasião de encontro." (Brandão, 2005)

Só faltou a autora afirmar que é a partir do trabalho que ohomem adquire os meios para, não só se auto-sustentar, como também se darprazeres através do lazer e ociosidade. Principalmente por que nacaracterização da sociedade atual nem sempre o trabalho tem sido o espaço ou oambiente de prazer e de realização. Cada vez mais se evidenciam valorescontrários a isso; daí a afirmação da autora dizendo que nossa sociedade secaracteriza pela valorização do individualismo, do isolamento e dacompetitividade.

Essa acaba sendo a dura situação contraditória e paradoxaldo trabalho e da vida humana, dentro da sociedade contemporânea. O ser humanoque se humaniza pelo trabalho não pode ser feliz no trabalho –pois este lhe é imposto como obrigação e meio de sujeição –,mas não pode ser feliz sem o trabalho – pois sem elenão consegue o suficiente e necessário para sobreviver. Por isso, de modogeral, a sociedade atual é formada por homens e mulheres infelizes dentro dessarealidade contraditória. E a origem dessa infelicidade, do stress e de inúmerasoutras doenças da sociedade moderna está não no trabalho que –como dizem muitos – é exaustivo, mas na injustadistribuição dos frutos do trabalho. O que estressa e enfarta não é a carga detrabalho, mas a crescente certeza da não acessibilidade aos frutos do trabalho.

Após a II Guerra Mundial, o processo de industrialização, osinegáveis avanços tecnológicos deram a impressão de que brevemente a sociedademundial desfrutaria de um bem estar inigualável e nunca antes imaginado.Pregava-se a era do Welfare State, ou a "Era de Ouro", para usar umaexpressão de Eric HOBSBAWM (2001). Mas esse "estado do bem estarsocial" se acabaria nos anos de 1980 e 1990 nas "Décadas deCrise". No período pós-guerra havia a expectativa de reconstruir o mundoesmigalhado pelas bombas e ódios. Era de se esperar, portanto que sedesenvolvesse na população um clima de expectativa positiva, confirmada,inicialmente pela expansão econômica. Havia a longínqua ameaça da guerra-friamas "a situação mundial se tornou razoavelmente estável pouco depois daguerra, e permaneceu assim até meados da década de 1970, quando o sistemainternacional e as unidades que o compunham entraram em um período de extensacrise política e econômica" (HOBSBAWM, 2001, p. 225). E uma crise que serevelou não só política e militar, mas também econômica. E por essa razãotrouxe consigo o clima e perspectiva de desânimo. Passou-se a constatar que"a Era de Ouro pertenceu essencialmente aos países capitalistasdesenvolvidos", afirma Hobsbawm, (2001, p. 255). E essa talvez tenha sidoa principal causa do descrédito em relação ao trabalho e à visão de que ele nãotraz aquilo que é a grande aspiração humana: condições de viver feliz.

E, o que é pior de tudo isso é que, ainda concordando comHOBSBAWM, o que se sucedeu, a partir dos anos de 1980 foi uma fase de crescentedesemprego. "A tendência geral da industrialização foi substituir acapacidade humana pela capacidade das máquinas, o trabalho humano por forçasmecânicas, jogando com isso pessoas para fora dos empregos" (2001, p.402). Ou seja, o avanço tecnológico que deveria gerar bem estar social, geroudesemprego, pois as indústrias que contratavam pessoas começaram adispensa-las, utilizando, em seu lugar, equipamentos robotizados. Os avançoscientíficos que deveriam ter gerado melhores condições de vida e subsistência,geraram concentração de renda e de poder. Os novos conhecimentos não foramsocializados e disponibilizados, mas permaneceram à disposição das empresas,instituições ou pessoas que os financiaram. Houve inigualável crescimento edesenvolvimento científico e tecnológico, mas que permaneceu concentrado empoucas mãos; ou se foi disponibilizado foi com a preços proibitivos. E, nosúltimas décadas, cada vez mais associa-se a mecanização robotizada e ainformatização. E o drama, na atualidade não é só o desemprego, mas a nãoexistência de emprego. "Os empregos perdidos nos maus tempos nãoretornariam quando os tempos melhoravam: não voltariam jamais" (2001, p.403). O que leva muitos a dizer que a sociedade atual encaminha-se para ser umasociedade sem empregos.

Essa sociedade do desemprego está produzindo uma outrarealidade. Produz a afirmação de que se vive não uma crise de desemprego, masde emprego, sendo que o lado bom dessa crise é que se manifestam oportunidadespara as mentes criativas, que reinventam as possibilidades de trabalho, poismais do que procurar emprego, o homem atual é desafiado a ser empreendedor,criando as próprias oportunidades. E, com isso, se acentua a característica dacompetição, presente na sociedade atual. Uma sociedade que tende a valorizar apropriedade e a capacidade de produzir para o outro. Mesmo o empreendedor nãoempreende em nome de sua auto-realização, mas para vender e se manter vivo e naangustia.

Mas foi ainda na década de 1980 que se chegou ao maisdolorido cenário, descrito por HOBSBAWM, referindo-se à segunda metade doséculo XX: "Mesmo os países pré-industrializados eram governados pelalógica férrea da mecanização, que mais cedo ou mais tarde tornava até mesmo omais barato ser humano mais caro que uma máquina capaz de fazer o seutrabalho" (2001, p. 403). Isso tudo para dizer que o trabalho humano, queé executado para produzir a felicidade de quem o realiza, tem geradoinquietação e apreensão ante o crescente do desemprego. A mecanização e todosos demais avanços técnico-científicos, que foram apregoados como anunciadoresde uma sociedade de bem estar, de lazer e ociosidade, produziram o desemprego eo drama da marginalidade. Mesmo que se admita que o trabalho é indispensávelpara a vida e a dignificação humana, ele não tem sido esse espaço. E parece queisso foi o que levou o poeta a cantar:

"Um homem se humilha, se castram seus sonhos

Seu sonho é sua vida e vida é trabalho

E sem o seu trabalho, o homem não tem honra

E sem a sua honra se morre, se mata"

Como o sonho está sendo morto? Pelo não acesso ao trabalho;pela crescente onda de programas governamentais de auxílio; pelainstitucionalização da esmola como meio de vida. O ser humano atual não tem aoportunidade de escolher o que e como produzir sua existência; cabe-lhe receberas migalhas dos auxílios governamentais. E outra vez é o poeta que nos recorda:

"uma esmola

pra um homem que é são,

ou lhe mata de vergonha,

ou vicia o cidadão"

5- Encerrando

Para encerrar cabe uma última pergunta, invertendo a que sefez na abertura desta reflexão: Que é o trabalho, para o ser humano? A essaindagação poder-se-ia responder que é o meio através do qual as pessoasadquirem não só seu sustento mas também e, principalmente, as condições de lazer.Poder-se-ia dizer que através do trabalho é que se realiza o sonho dahumanidade, de permanecer não só trabalhando, mas executando atividadesprazerosas; não só trabalhar, mas usufruir dos resultados do trabalho e comisso ser e se transformar em pessoa feliz, fazendo do trabalho motivo dealegria e realização. Não só ter oportunidade de trabalho, como, eprincipalmente, desfrutar da ociosidade, pois está sim é espaço criativo.

E assim, todo trabalhador poderia cantar como canta ZecaPagodinho:

"Se eu quiser fumar eu fumo

se eu quiser beber eu bebo

pago tudo que eu consumo

com o suor do meu emprego"

Pois a finalidade da vida humana não é o trabalho para aacumulação, mas a busca da ociosidade de onde podem nascer grandes criações; eo prazer de viver a vida com a única preocupação de ser feliz, realizando-seplenamente e criativamente.

Cabe, ainda, lembrar que a busca dessa felicidade passa nãosó pelo ambiente de trabalho como por todas as dimensões da vida humana. Talvezpor isso os homens tenham inventado a escola e o processo educativo para fazerdessa instituição e desse processo um dos mecanismos usados para transmitir àsnovas gerações aquilo que é o mais importante para a vida das pessoas: a buscada realização. A busca da superação dos medos. A busca daquilo que lhe falta,como na música "Comida", cantada pelos Titãs:

"A gente não quer só comer

A gente quer comer e quer fazer amor

A gente não quer só comer

A gente quer prazer pra aliviar a dor

A gente não quer só dinheiro

A gente quer dinheiro e felicidade

A gente não quer só dinheiro

A gente quer inteiro e não pela metade"

E, se quisermos uma passo a mais poderemos acenar para osentido da existência humana.Conforma vimos trata-se de uma existência semsentido em si mesma. Entretanto e já que ela não tem sentido, cabe ao serhumano, em seu processo de trabalho, produzindo cultura, produzir, também osentido da existência. Já que a existência não tem sentido cabe ao ser humanodar-lhe um sentido...

7- Referências

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ANTROPOLOGIA, disponível em acesso: 18/10/2008

BRANDÃO, Carlos Rodrigues. Viver de criar cultura, culturapopular, arte e educação. In. SILVA, René Marc da Costa (Org). Culturapopular e educação. Brasília: Salto para o futuro/TVEscola/SEED/MEC, 2008.

BRANDÃO, Sílvia R. Rocha A Vocação Humana: uma AbordagemAntropológica e Filosófica disponível em acessado em 15 de janeiro de2005

CARNEIRO, Neri P. As Múltiplas Inteligências eInteligência Musical. Disponível emPublicadoem www.webartigos.com em 20/05/2008

CHARDIN, P. Teilhard. O fenômeno humano. São Paulo:Cultrix, 1986

COUCEIRO, Sylvia. Os desafios da história cultural.In. BURITY,Cultura e Identidade: perspectivas insterdisciplinares. Rio deJaneiro: DP&A, 2002

DA MATTA, Roberto. Carnaval, Malandros e Heróis: parauma sociologia do dilema brasileiro. 6 ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1997

HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos: breve história doséculo XX (1914-1991) 2 ed. São Paulo: Cia das Letras. 2001.

HOMERO A Ilíada, São Paulo: Europa-América. [1980?]

LAFARGUE, Paul. O Direito à preguiça. 2 ed. SãoPaulo: Hucitec, 2000

LAPLANTINE, François. Aprender Antropologia. 12 reimpda 1 ed, (1988), São Paulo: Brasiliense, 2000.

MELLO, Luiz Gonzaga de. Antropologia Culturaliniciação, teoria e temas. Petrópolis: Vozes, 1982

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Mestre em educação (UFMS). Especialista em educação (UNESC eUNIR). Especialista em Leitura Popular da Bíblia (CEBI) Graduado em Filosofia(UNOESTE). Bacharel em Teologia (ITESC) Graduado em História (UNIR). Professorde Filosofia e de ética na FAP. Professor de História e Filosofia da redepública estadual, em Rolim de Moura. Colaborador em jornais da região.

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As estrofes citadas, numa feliz coincidência, reuniu pai efilho na mesma análise. Gonzaguinha compôs"Guerreiro menino" e LuizGonzaga, em parceria com Zé Dantas, "Vozes da Seca". A letra damúsica de Luiz

Gonzaga pode ser acessada em e a de Gonzaguinha estádisponível em .

A letra da música "Maneiras", cantada por ZecaPagodinho está disponível em:

A letra da música "Comida" cantada pelos Titãsestá disponível em:

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