A experiência e a comunicação Francisco Morato, São Paulo

A maior contribuição das neurociências na última década é a de que o hipocampo humano e de certos animais continua crescendo anatômica e funcionalmente. Em outras palavras, esta área do cérebro – relacionada à memória e à aprendizagem – tem a capacidade de gerar novos neurônios. Entenda mais no artigo abaixo.

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A experiência e a comunicação

PASSARINHO NA MUDA NÃO CANTA

Durante muitos anos a afirmação supracitada nada mais significou do que um ditado popular, produto de uma observação empírica. Mais tarde, vários cientistas verificaram que os canários deixavam de cantar no outono devido à morte dos neurônios responsáveis pelo canto. Durante o inverno, com a regeneração destas células, os pássaros voltavam a cantar na primavera.

Recentemente, pesquisadores (?!) americanos destruíram os neurônios canoros do tentilhão, pássaro da família dos fringilídeos, muito comum na Europa, e que – ao contrário do canário – canta o ano todo. Previsivelmente, o pássaro deixou de cantar. Três meses depois, entretanto, o tentilhão recuperou o seu canto, o que demonstra a capacidade de regeneração das suas células cerebrais responsáveis por esta função.

Céus! O hipocampo continua crescendo!

Segundo Ernest Rossi, um dos três mais famosos discípulos de Milton Erickson, a maior contribuição das neurociências na última década é a de que o hipocampo humano e de certos animais continua crescendo anatômica e funcionalmente. Em outras palavras, esta área do cérebro – relacionada à memória e à aprendizagem – tem a capacidade de gerar novos neurônios, além de promover maiores comunicações entre eles.

Esta descoberta revolucionária – graças a Deus – mudou o paradigma então vigente, que afirmava que na medida em que acumulávamos aniversários, nossas células nervosas progressivamente faleciam e suas terminações (dendritos) se deterioravam.

Destino não é mais karma.

Pesquisadores independentes também descobriram que certos genes – famílias de genes de ativação imediata – são ativados e desativados a cada segundo da nossa vida. Curioso é que até recentemente, consideravam-se os genes como unidades estáticas de uma herança física, transmitidas de uma geração para outra através da reprodução sexual.

Um subproduto extremamente importante da ativação destas famílias de genes é o nascimento de novos neurônios, bem como de um número maior e mais complexo de comunicações entre si. Desta forma, passamos a ativar diversas áreas do cérebro até então ociosas. Ficamos mais inteligentes e criativos.

Quer dizer que preciso esperar que a decifração completa do genoma me permita fazer terapias genéticas seguras e compatíveis com meu bolso para incrementar minha inteligência e criatividade?

Felizmente não, ansioso leitor. Embora haja muitos mundos a descobrir, sabemos hoje que há diversas formas de ativar (e desativar) os genes de ativação imediata.

Tudo o que representa novidade para o cérebro ativa os genes acima. Novidade nos cinco sentidos: visão, audição, tato, olfato e paladar. A ativação cessa assim que estes estímulos se tornam rotineiros. Outros ativadores são a excitação sexual, momentos de criatividade, prazer e paz, além de exercícios físicos e mentais.

Inversamente, o estresse persistente, a dor física, o sofrimento, a depressão são fatores que desativam os genes de ativação imediata.

Neuróbica

Lawrence Katz, renomado investigador da Universidade de Duke, observou que o acréscimo de doses extras de neurotrofinas (substâncias fundamentais na nutrição do cérebro) a um neurônio ativo quase dobrava o tamanho e a complexidade dos dendritos que se projetavam do mesmo.

Baseado em diversos estudos que demonstravam a geração de novos neurônios no hipocampo – e no desenvolvimento das suas ramificações – frente a estímulos inusitados, o doutor Katz criou uma síntese a qual chamou de neuróbica. Dito de outro modo, Katz elaborou uma série de “exercícios para o cérebro”, envolvendo os canais visual, auditivo, cinestésico, gustativo e olfativo em experiências incomuns na rotina diária.

Mais uma vez, como diria Mark Tawain, “os antigos surrupiaram todas as nossas melhores idéias”. Quer dizer, a observação empírica precede sempre à comprovação científica. Como é o caso de inúmeras pessoas que conservaram a lucidez até uma idade provecta, entre as quais lembramos Barbosa Lima Sobrinho, Alceu de Amoroso Lima, Sobral Pinto, Picasso e

∗∗ Fonte: Revista Viver Mente & Cérebro; Edição 154 – novembro de 2005.

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