A condição humana no processo textual Palmas, Tocantins

Analise de como os autores narram suas historias embasados em ponto de vista, estado de espirito e outros fatores humanos que interferem na sua criacao textual. Para entender o processo da escrita sao citados os estilos adotados por autores populares como Graciliano Ramos e Jorge Amado. Refere-se a escrita e a interpretacao da mensagem

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Educandario Objetivo
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A condição humana no processo textual

Dizem os estudiosos que o ato de escrever, por maisdiscreto e cuidadoso que seja, faz com que as pessoas que o praticam acabemdesnudando a própria alma e a sua real natureza íntima diante dos leitores; quede suas palavras se deduz, nas entrelinhas, o que são e o que sentem, e que oestudo investigativo de suas obras pode transformá-las de heróis em bandidos,ou vice-versa.

Concordo em parte.Achoque nem sempre o autor ou autora se identificam como pessoas com os conceitosexpressos naquilo que escrevem e que brota em geral dos arquivos doinconsciente.Graciliano Ramos, porexemplo, talvez em função do que sofreu, era uma pessoa extremamente irritadiçae rabujenta, tinha poucos amigos, não gostava de crianças nem de vizinhos e tinhacomo fonte habitual de leitura a Bíblia.E no entanto foi capaz de produzir obras primas como "Infância" e "SãoBernardo".

FrançoisVillon, poeta francês, tinha a fama de ser ladrão, malfeitor e chefe dequadrilha, mas foi um extraordinário poeta lírico, conforme o depoimento dacrítica e o conteúdo de seus próprios livros.

Outroshouve cuja vida pessoal foi um inferno, povoada de tragédias e perseguições,como foi o caso deBocage,o mestre dos sonetos e a maior expressão dapoesia portuguesa, e Mark Twain, pai da comédia norte-americana, quetransmutavam em beleza e humor as suas peripécias e riam de suas própriasamarguras.Balzac viveu em apuros,perseguido por doenças e dívidas, mas só ocasionalmente transferia estesproblemas para seus livros, e quando isto acontecia, costumava ser educado ecomplacente com suas criaturas e respeitoso com o bem estar dos leitores, semchateá-los ou aborrecê-los.Estes eoutros, antes de buscarem adeptos ou cúmplices de seus dramas ou modos de ser,apenas se limitavam a narrar os fatos, às vezes com ironia e sutileza, mas semnenhum ressentimento ou mágoa pessoal.

Mas às vezes acontece que o autor impregna com corestão fortes a sua narrativa, que acaba ferindo a suscetibilidade de quem o lê.

Umfato desse gênero ocorreu com uma colega minha de trabalho em relação a ÉricoVeríssimo, porque, segundo ela, no Incidente em Antares, conseguiutransmitir tão vivamente o cheiro nauseabundo dos mortos que a enojou.E a partir de então, por esse fato isolado,nunca mais quis ler os seus romances, perdendo, com isso, a oportunidade desaborear a leitura de obras tão maravilhosas como Olhai os Lírios do Campo ea trilogiaO Tempo e o Vento.

Alguns leitores taxavamo escritor Jorge Amado de burguês, que seservira de sua condição de delegado socialista nas convenções internacionaispara divulgar a sua obra e o seu nome em outros países e continentes, enquantomantinha relaçoes de cordialidade com a artistocracia e com reconhecidosadversários de sua linha político-partidária.O que, aliás, ele nunca procurou esconder, pois era amigo pessoal deAntonio Carlos Magalhães e de outras figuras da extrema Direita.Entretanto, poucos autores conseguiramretratar com tamanha verossimilhança e empatia os fatos sociais e personagenscomo em seus romances "Teresa Batista", "Suor" e "Gabriela".

Burguesesou paradoxais, outros tiveram o seu lado polêmico sem deixar de ser grandesautores, como o integralista Plínio Salgado com a sua "Vida de Jesus"; ogozador e boêmio Vinícius de Morais, com suas magníficas poesias e composiçõesmusicais;o escandalosoOscar Wilde, com suas parábolas "O Rouxinol ea Rosa" , "O Príncipe Feliz" e "O Pescador e sua Alma";o dissoluto André Gide que no entantoproduziu "A Sinfonia Pastoral".E assimpoderíamos citar inúmeros exemplos, nas artes e nas letras, desvinculados dacondição humana, escola ou filosofia a que tenham pertencido, pois nenhumainstituição outorga o talento e a genialidade.

Eume lembro de alguém com quem um dia conversava que me disse que havia deixadode ler certos autores porque descobrira fatos negativos a seu respeito.Entre esses autores estavam algunsnorte-americanos bastante conhecidos, como o poeta Edgar Allan Poe, odramaturgo Tennessee Williams e o romancista Ernest Hemingway.O primeiro por ser um alcoólatra, o segundopor sua desregrada vida pessoal e o terceiro por serum violento neurótico de guerra que, além deextravasar os seus instintos sanguinários no boxe, na caça e na pesca, tinha cometidoo pecado mortal de suicidar-se.

Isso infelizmente acontecequando começamos a endeusar as pessoas e não nos contentamos com o que possamtransmitir essencialmente através de sua arte.Precisamos conhecê-las, investigar suas vidas, saber como são e como secomportam e, às vezes,nosdecepcionamos.

Um excelente autor ou autora, conforme o revelam emseus textos, às vezes não passam, como pessoas , de indivíduos socialmenteintratáveis, por seus hábitos pessoais, por sua irreverência, por sua arrogância,sua vaidade, orgulho ou prepotência; ou então por serem humildes demais,apagados, tímidos, introvertidos e incapazes de entabular ou manter uma boaconversa.

O exercício da arte de escrever, ou de qualquer outraarte, por induzir à reflexão, ao raciocínio e à expressão, deveria com o tempoeducar e melhorar as pessoas.Mas isto,infelizmente, devido a uma série de outros fatores, nem sempre acontece.

Luciano Machado

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